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14 de Agosto de 2022

É possível encontrar liberdade na sua profissão?

Um texto sobre os caminhos da vida e como podemos desenhá-los.

Pedro Custódio, Advogado
Publicado por Pedro Custódio
há 2 anos

Era o ano de 2011, o último na faculdade. Eu tinha concluído todos os estágios obrigatórios, não “devia” nenhuma matéria e tinha sido aprovado com nota máxima no trabalho de conclusão de curso – o temido “TCC”.

Era só esperar o último dia de aula, pegar o diploma na cerimônia solene, jogar o capelo para cima, comemorar bastante na festa de formatura e...

Isso mesmo. Depois disso eu não sabia o que ia fazer.

Desde pequeno eu queria ser músico. Eu não tinha a mínima ideia de como ganharia a vida com isso – parece que não nos preocupamos com essas coisas quando crianças –, mas, na minha imaginação, eu ia viajar o mundo e tocar.

Eu queria liberdade.

Durante a faculdade eu até tentei. Tinha uma banda, tocamos em alguns festivais e eventos em outras cidades, mas nunca consegui ganhar um real com isso – quando crescemos já começamos a nos preocupar com essas coisas.

Diferentemente do que eu imaginava quando menino, estava me formando numa profissão tradicional e cheia de jargões, com poucos caminhos a seguir – pelo menos como eu enxergava naquela época – a não ser o serviço público ou a advocacia.

Os dois caminhos eram muito bons. O serviço público me proporcionaria estabilidade financeira e eu não precisaria me preocupar com o dinheiro no final do mês. Já a advocacia me permitiria exercer o direito em sua essência, argumentando, desenvolvendo teses, estudando e defendendo o direito das pessoas.

Mas, concursado ou advogando, a imagem que eu tinha dos meus dias de vida era sentado numa cadeira de escritório o dia inteiro, com apenas trinta dias de férias para estar onde eu queria.

E isso me incomodava. Afinal, aquele menino viajante e livre ainda estava vivo dentro de mim.

Escolhi a advocacia – até mesmo porque não consegui passar em nenhum concurso público.

Dito e feito. Por dois anos e meio minha rotina foi acordar, entrar no escritório (que não era o meu) sentar numa cadeira às 8h e ir embora às 18h.

O pior de tudo é que eu não enxergava uma possibilidade de sair daquele padrão corporativo de trabalho. Na minha cabeça, ou eu encarava ter que abrir e fechar o escritório todos os dias e esperar as férias ou teria que procurar outra coisa.

A sua liberdade pode estar a dez minutos de leitura

Era uma manhã como outra qualquer, provavelmente uma sexta-feira, quando eu ficava de bobeira na internet só cumprindo horário – pois já havia feito praticamente todo o trabalho no dia anterior.

Não me lembro muito bem sobre o que estava pesquisando, mas esse texto aqui apareceu nas sugestões do Google e eu li. Quando terminei de ler, me senti esbofeteado. Naquela noite eu não dormi, fiquei furioso comigo mesmo.

Inseguro? Medroso? Conformado? Esses eram os adjetivos que me descreviam naquele momento. Era como se todos eles tivessem travado meu cérebro durante todo aquele tempo.

Porque eu não tinha colocado meu cérebro para funcionar antes? Tudo parecia óbvio demais.

, os processos judiciais são eletrônicos, eu trabalhava escrevendo e a maioria dos contatos com os clientes era por e-mail ou telefone. O que eu estava fazendo sentado naquela cadeira de escritório o dia inteiro, então?

Foi o start: eu não precisava de um escritório físico para trabalhar.

Faça alguma coisa

Quando tive esse start eu estava prestes a me casar. Faltava um mês, para ser mais específico.

Naquele momento era como se eu estivesse no ponto central de uma gangorra tentando equilibrar os dois extremos. Eu não queria me casar e continuar arrastando uma vida morna, sentado na cadeira de um escritório o dia todo, sem ter tempo para minha esposa nem para nossas aventuras, mas também não poderia “largar tudo” como alguns divulgam por aí.

Eu precisava de um plano.

Cara, aí eu tive outro start! , como os processos judiciais são eletrônicos e eu trabalhava escrevendo, eu poderia cumprir os prazos de maneira remota. Ou seja, eu mudaria totalmente meu estilo de vida, sem deixar de fazer o que eu já estava fazendo: cumprindo prazos.

A jornada de mil milhas começa com um passo. Lao Tzu

Ensaiei bastante e, como não aguentava mais de ansiedade, no outro dia fiz essa proposta para o pessoal do escritório no qual trabalhava. Aqui eu tive que vencer meu medo e arriscar. Afinal, eles poderiam não aceitar e o meu plano iria por água abaixo.

De qualquer forma, pensei: o não eu já tenho – e só vivemos uma vez.

Eles aceitaram.

Já nas primeiras semanas trabalhando em casa eu conseguia cumprir, em meio período do dia, o que eu levava o dia todo para concluir sentado na cadeira do escritório – olhando para o relógio, é claro.

Nesse tempo de sobra, comecei a investir na minha própria marca pessoal.

Publiquei um blog, melhorei meu perfil aqui no Jusbrasil e no LinkedIn (estavam às moscas) e comecei a escrever e me relacionar na rede, coisas que eu não fazia antes.

Conclusão

Lembra que eu queria liberdade? Me tornei um advogado que carrega o escritório na mochila, mora num sítio e conta sua história por aí.

Às vezes precisamos deixar de apenas querer mudar a nossa vida e decidir criar a realidade que queremos. Essa mudança pode estar a um texto de distância.

Originalmente publicado em 17/05/2018, na minha coluna do befreela.com

Me lembrei desse texto que escrevi no longínquo ano de 2018, quando sequer cogitávamos ficar confinados em casa, enquanto o mundo é assolado por uma pandemia.

Na época, escrevi pensando em todos os meus leitores que desejavam ser livres, trabalhar com mais criatividade e propósito, mas não sabiam por onde começar.

Esse foi o meu começo, e espero que ainda sirva de inspiração para quem quiser...

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20 Comentários

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Pedro, pra mim, um valor que é inegociável é a liberdade.

Demorei muito tentando entender o porquê ficava pouco tempo em cada emprego, mas é exatamente pela liberdade.

Toda vez que tentavam tirar minha liberdade e me colocar em caixas, eu 'caia fora'.

Excelente texto, Pedro! 🚀 continuar lendo

Oi, Guilherme!

Pois é. Essa questão da liberdade sempre mexeu comigo também. Inclusive, já perdi boas oportunidades de trabalho por viver remotamente em um sítio.

Mas acho que sempre tem um preço a ser pago quando queremos criar o nosso caminho (pelo menos o que podemos mudar), não é?

Obrigado pelo seu comentário! Abraços! continuar lendo

Eu adoro suas histórias Pedro.

Parando para pensar, eu acho maravilhosa essa maneira de ver o mundo fora da caixa, mas hoje em dia eu vejo como isso também não se adapta para todo mundo, é tão controverso rs

Vejo pessoas que se você tirar da caixa, a vida perde o sentido, para ela aquilo é a melhor maneira de viver.

Eu levei muito tempo até entender que não preciso do padrão, apesar dele me trazer estabilidade.

Mas também passei a ver que o extremo de não viver na caixa também não é para mim, tipo super admiro quem vive com a mochila nas costas, mas descobri que isso não é para mim, que eu tenho meu próprio padrão de gostar da monotonia da advocacia padrão e percebi que está tudo ok também.

Adquiri a liberdade que eu relativamente queria, mas ainda gosto da forma como eu também tenho meus compromissos encaixados.

Esses padrões e não padrões mexem muito com a nossa cabeça atualmente e adoro que possamos discutir isso livremente e buscar a tão sonhada paz de espírito rs continuar lendo

Oi, Alice!

Que legal o seu comentário! Concordo demais com você. Como disse para o @guilhermepeara, eu perdi algumas oportunidades por morar em um sítio. Não é algo que aconselho. Haha!

Esse espírito livre já nasceu comigo. Outras pessoas sonham com um escritório bem equipado. Acho que tem espaço para todo mundo e a liberdade é um encontro pessoal :)

Obrigado por comentar!

Abraços! continuar lendo

Baita texto, @pedrocustodion ! Acho que a advocacia autônoma ou mesmo de um pequeno escritório combina muito com essa liberdade, de poder trabalhar de onde quiser e quando quiser. Já pensei em voltar atrás, para o mundo corporativo novamente, mas cada vez que isso me vem à cabeça, acontece algo que me faz ver que escolhi certo há um ano atrás. Muito sucesso e que você sirva de inspiração para uma galera que está aí saindo da faculdade, sem qualquer perspectiva com o mundo do Direito! continuar lendo

E aí, Maico!

Que legal ler isso, cara! Pra mim também foi um caminho sem volta!

Obrigado por ler e comentar! E parabéns por inspirar tanta gente com seus conteúdos também!

Abraços! continuar lendo

Belo texto, Pedro. Lembro de um conto do Noll, "Alguma coisa urgentemente".

Toda vez que me coloco em uma situação que preciso fazer alguma coisa lembro desse título. Aí sei que preciso fazer alguma coisa urgentemente.

Direito, filosofia e literatura me inspiram.

Não sei se vou conseguir fazer alguma coisa com os três, mas estou começando a tentar.

Quem sabe um dia.

Boa sorte da jornada e aproveite a caminhada.

Abs. continuar lendo

Oi, Marcio!

Poxa, são coisas que me inspiram também. Acho que todos precisamos refletir em algum momento, sobre o porquê fazemos o que fazemos. Essas coisas.

Obrigado pelo seu comentário e bora colocar suas ideias no mundo :)

Abraços! continuar lendo