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14 de Agosto de 2022

Um advogado na Rua E, nº 22

Uma série de crônicas por aqui.

Pedro Custódio, Advogado
Publicado por Pedro Custódio
há 2 anos

Era um domingo qualquer. Meu celular toca. Do outro lado, meu sogro.

Eu não esperava uma conversa sobre o resultado de algum jogo do campeonato brasileiro. Meu sogro não curte futebol e ele sabe que eu também não. Nossas conversas, geralmente, são sobre as trilhas na Serra da Canastra, cachoeiras geladas, bichos do cerrado e fatos antigos de tempos que eu não vivi, mas que gosto de saber.

A ligação foi rápida. Apenas para me dizer que um conhecido tinha uma “causa ganha” e estava disposto a dividir com o advogado que a “encarasse” 50% do - possível - valor a ser devolvido.

Puff, pensei. “Causa ganha”. “Encarasse”...

Existe um abismo que separa esse negócio de “causa ganha” e a realidade. Sempre há uma outra versão. Existe um longo caminho até o ganho de causa. Além disso, a causa pode ser perdida mesmo.

Ele me passou o telefone do “possível cliente”.

- “Sr. Edgar” -, complementou meu sogro.

Anotei tudo.

Na segunda-feira de manhã, organizei algumas coisas e liguei para o Sr. Edgar. Com uma voz um pouco rouca, como de quem tinha acabado de acordar, ele disse que poderíamos nos encontrar no período da tarde.

Confirmei o endereço: Rua E, nº 22, Bairro Princesa Isabel.

Peguei meu notebook, alguns papéis em branco, uma caneta esferográfica azul e coloquei na minha pasta. Uma Samsonite preta e desbotada, de terceira mão. Era o que eu tinha.

Nessa época eu já me perguntava se precisava de muita coisa além disso, na verdade.

Rua E, nº 22.

Uma ladeira, um muro alto e o número “22” escrito à mão. Logo abaixo, um pouco borrado, consegui ler a palavra “fundos”. Fazia 37 graus, às 14h em ponto. Eu vestia um terno preto e sapatos por engraxar. Pensei em colocar uma gravata também, mas a essa altura já teria tirado.

Ao lado da porta tinha uma daquelas campainhas antigas que parecem tomada e têm um sininho desenhado na ponta. Toquei e fiquei ali aguardando, até ouvir passos de alguém vindo pelo corredor para abrir a porta.

Um senhor de aproximadamente 65 anos me atende. Bigode e cabelos tingidos de preto luminoso. Alguém que queria esconder a idade. Era o Sr. Edgar.

Digo boa tarde. Ele responde da mesma forma e me convida para entrar.

Enquanto ele ia à frente, passando pelo corredor apertado, eu vinha logo atrás me desviando das roupas no varal.

Por alguns milésimos de segundo, passou pela minha cabeça a imagem de Harvey Specter pegando um café em uma rua badalada de Nova Iorque, antes de ir para o seu escritório com paredes de vidro temperado, enquanto eu estava mais para o Saul cavando o deserto de Albuquerque num calor de 41 graus.

- Me desculpe pela bagunça, Dr.

- Sem problemas, Sr. Edgar.

A casa era bem simples e já fomos entrando na cozinha. Tinha um fogão com algumas panelas e comida do almoço, uma mesa no canto e sobre ela um forro plástico com desenhos de frutas e legumes variados. Estava coberta de farelos de pão também.

Ficamos por ali. Enquanto o Sr. Edgar estava de pé tentando tirar os farelos de pão sobre a mesa e tentando organizar rapidamente a bagunça - como se fosse possível -, me sentei na única cadeira da cozinha e coloquei minha Samsonite no colo.

De onde viria os 50% prometidos ao advogado que encarasse a causa? Dos honorários contratuais é que não era. Eu dependia da causa ganha mesmo.

- O Dr. aceita um café?

- Não precisa se incomodar -, eu logo respondi.

Essa foi a deixa que abriu espaço para um senhor aposentado e sozinho me contar sua história.

Ouvi atentamente enquanto ele divagava sobre suas aventuras joviais, seus casamentos frustrados, as economias de uma vida juntadas e como perdeu tudo depois que o banco lhe “roubou”. Nesse momento, Edgar se dirige ao que parecia o quarto e volta com uma caixa grande de papelão.

De lá, saem alguns maços de papel e logo entendi ser a fotocópia de um processo: o processo contra o banco.

O arquivo físico tinha tranquilamente 400 páginas. Cheio de orelhas e encardido de tanto manuseio, o Sr. Edgar conseguia abrir em locais precisos, deixando claro não só o seu inconformismo, mas também que muita gente - e, porque não, outros advogados - já tinha se deparado com a sua história.

Era perceptível o sentimento de injustiça por parte dele.

- Posso dar uma olhada?

- Por favor -, disse ele.

O número do processo nos fazia regressar ao ano de 1999.

Esperto, fui folheando de maneira galopante para as últimas páginas, procurando a certidão de trânsito em julgado.

Ali estava ela. Datada e assinada.

Logo percebi que não se tratava de uma “causa ganha”. Muito pelo contrário.

- Temos que entrar com o processo, Dr. Já falei com outro advogado e ele está vendo também.

- O senhor falou com outro advogado? -, pergunto com um leve sentimento de alívio.

- Sim. Ele ficou de me dar uma resposta.

Era tudo o que eu precisava.

- Nesse caso, Sr. Edgar, é melhor aguardar a resposta do outro advogado.

Apoiei a alça da minha velha Samsonite no meu ombro esquerdo e, desviando-me daquelas roupas penduradas no varal, não via a hora de entrar no carro e ligar o ar-condicionado.

Publicado originalmente em pedrocustodio.adv.br

Essa crônica faz parte de uma série que quero escrever por aqui. Todo advogado e advogada já teve alguma experiência que renderia uma boa crônica.

O que você acha de compartilhar comigo alguma dessas suas experiências e eu transformar em algo assim para você e outras pessoas lerem?

Pode me enviar por e-mail (contato@pedrocustodio.adv.br), por aqui, ou em qualquer lugar onde você conseguir me achar.

***

PS: o nome e endereço que você leu aqui são fictícios. Escrevi e escreverei com fins exclusivamente literários.

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82 Comentários

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Pedrão, a forma como você desenha as imagens com as palavras é do nível de algumas das melhores crônicas que já li.

Aliás, como deve ter percebido, adoro textos como esse. Manda mais! :) continuar lendo

Salve, Brunão!

Que legal ler isso, cara! Que bom que gostou :)

Obrigado pelo comentário! Abraços! continuar lendo

Excelente. Parabéns. continuar lendo

Obrigado por ler e comentar, Anderson!

Abraços! continuar lendo

E eu que comecei a ler, mas enxerguei mentalmente "Rua Baker, 221B. O que um advogado vai fazer no apartamento de Sherlock Holmes?"

hahahaha doida

Acho incrível os detalhes dos seus escritos!

Abraço :D continuar lendo

Hahahaha! Boa, Pâmela! =D

Qualquer semelhança é mera coincidência! ;)

Obrigado pelo comentário! Abraços! continuar lendo

Todos nós temos histórias para contar, ainda mais envolvendo o trabalho de advogar.

Essa sua história só demonstra o quanto as pessoas desconhecem o processo e os termos jurídicos que o acompanham, havendo a necessidade de explicar o Direito de maneira simples e acessível para todos e, assim, evitar o surgimento dessa falsa esperança de "causa ganha". continuar lendo

Bem isso mesmo, Rafael!

O que mais me chamou a atenção é que o senso de justiça estava longe do Sr. Edgar, e tentar restaurar isso demandava voltar aos meados de 1999 :/

Obrigado pelo seu comentário! Abraços! continuar lendo