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29 de Maio de 2020

A Think Week e a arte de dar um tempo

Pedro Custódio, Advogado
Publicado por Pedro Custódio
há 6 meses

Era um dia de semana qualquer e, entre uma leitura e outra, senti falta dos textos de um advogado que sigo numa rede profissional. Por alguma razão que até então eu não sabia, ele simplesmente havia sumido.

Como temos um contato pessoal, resolvi falar um oi. Depois de algumas mensagens ele me contou que teve uma crise de ansiedade e estava se tratando.

De certa forma, não fiquei espantado. Já falei em outro texto que esses quadros de ansiedade estão cada vez mais comuns entre os advogados. Outros colegas já contaram ter vivido momentos assim também.

Depois de algumas semanas, mandei outra mensagem perguntando como ele estava e ele disse que estava melhor. Me contou que passou 10 dias pescando na Amazônia. Poxa, que legal, pensei, e torci para que ele ficasse bem.

Isso me fez lembrar da última vez que me desliguei de tudo. Na verdade, não me lembro.

Apesar de morar num sítio, trabalhar em casa e fazer meus próprios horários, eu tenho uma rotina de trabalho que pode ser considerada pesada para qualquer um.

Quem trabalha online, como eu, e além de tudo trabalha escrevendo, na verdade está trabalhando o tempo todo, pois a nossa mente não para de ter ideias e de criar coisas. O meu trabalho não se resume a me sentar na frente de um computador e despejar um monte de palavras num editor de texto. Esse, talvez, seja o último estágio de uma rotina de contemplação, onde você fica ligado o tempo todo no que está acontecendo ao seu redor, buscando um repertório de coisas que possam fazer ligações na sua mente e compor ideias e novas conexões.

Enquanto fazia meu café hoje de manhã, por exemplo, estava pensando nesse texto. No fim da tarde, enquanto estou passeando com minha esposa e nossa cachorrinha, não é raro eu pensar sem querer em alguma ideia que pode solucionar um problema que eu tenho. À noite, me sinto à vontade para terminar alguma coisa ou dar andamento em algum projeto.

Eu aproveito todas as pequenas janelas do meu dia para criar e, embora isso seja muito bom por um lado, cheguei a algumas conclusões sobre o meu trabalho: 1) minha mente fica funcionando o tempo todo e 2) se ela não estiver bem, eu não consigo trabalhar. Simples assim.

Isso vale pra vocês também, meus caros leitores advogados. Sua mente é a sua principal ferramenta de trabalho. A carteira da OAB é um mero detalhe.

Mesmo com uns dias de descanso aqui e ali e algumas viagens curtas, como quando fui para a Serra da Canastra e fiquei 4 dias sem sinal no celular, faz tempo que não me desligo por um tempo de maneira planejada e proposital. Desligar mesmo. Não fazer nenhum dever. Contemplar e deixar minha mente livre para criar sem pretensões financeiras.

Semana que vem eu e minha esposa - e a yorkshire que mora com a gente - embarcaremos numa viagem para a Argentina. Sua capital, Buenos Aires, será nosso CEP por um mês. Depois disso, ainda não sabemos nosso destino.

É a primeira vez que coloco literalmente todo o meu escritório na mochila e fico longe de casa por tanto tempo, numa viagem nômade digital. Naturalmente, estou com várias ideias na cabeça para esse período na terra dos hermanos, mas quero tentar fazer algo diferente.

Recentemente li sobre uma prática que o Bill Gates faz, que é tirar uma semana por ano, todo ano, para pensar na vida e ter novas ideias. Chamada de Think Week, ou "semana para pensar", numa tradução simples, Gates costuma viajar sozinho levando consigo apenas alguns livros e documentos, para uma espécie de leitura sabática profunda. Depois de uma semana, renovado, Bill volta com novas ideias e definições, e costuma compartilhar suas anotações com o pessoal da sua empresa, a Microsoft.

Na Think Week você passa a semana inteira lendo, escrevendo e explorando as ideias que encontra. Mas não é uma leitura linear, onde você finaliza um livro e passa para o próximo. Em vez disso, você lê numa ordem quase caótica, pulando de livro em livro, de romance à ficção, de autoajuda a empreendedorismo e, por que não, alguma coisa do Direito Tributário também.

Eu acho que, quanto mais você desenvolve um trabalho que usa muito a cabeça, mais você precisa desses momentos de relaxamento. E você não tem que ter o mesmo formato de trabalho que o meu para fazer isso, muito menos sair para uma longa viagem. Você pode fazer isso em algum parque da sua cidade, levando seus livros velhos e empoeirados, ou numa livraria tranquila de um shopping.

A ideia aqui é usar suas férias com mais sabedoria e de maneira mais criativa. O recesso está aí para isso. Ainda dá tempo de planejar algo.

Espero ter ideias legais para o ano de 2020.

E aí, gostou do texto? Você já fez algo parecido ou planeja fazer alguma coisa diferente nesse recesso? Adoraria saber! Me conta nos comentários!

Publicado originalmente em pedrocustodio.adv.br

38 Comentários

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Nossa mente está sempre trabalhando muito, não é?
Engraçado que lendo seu texto, 02 coisas já me vieram à cabeça:

A primeira é que no ano passado, quando estava no último ano da faculdade, passei na OAB e concomitantemente meu contrato de estágio se encerrou. Antes eu tinha uma rotina caótica de estudo e trabalho, depois fiquei sem nada. Resultado: tive uma espécie de início de crise de ansiedade.

Outra coisa: precisamos tomar cuidado com o home office e com o próprio exercício da advocacia. Eu, quando comecei a atuar, estranhei ter que fazer diligência e trabalhos fora do escritório, pois sentia que eu não estava de fato trabalhando e me sentia culpada.

É importantíssimo que saibamos identificar nosso trabalho, nossas ações e também nos dar tempo livre DE QUALIDADE para descansarmos e sermos ainda mais produtivos quando em atividade.

Ótimo texto, Dr! ;) continuar lendo

Boa contribuição.. estarei entrando nesse ponto de vista logo menos!
Espero n ter ansiedade kkkk. continuar lendo

Oi, Juliana!

Verdade! Eu também já senti essa culpa por estar fazendo algo que eu achava que não deveria estar fazendo. Mas acho que a pior culpa é aquela que sentimos quando não estamos fazendo nada mesmo, como se a gente tivesse a obrigação de fazer alguma coisa o tempo todo.

Um mal da nossa geração, mas esses surtos de ansiedade nos mostram que, talvez, a gente não esteja conseguindo equilibrar as coisas.

Como você disse, a gente precisa mesmo de um tempo livre de qualidade ;)

Obrigado pelo seu comentário! Abraços! continuar lendo

Faço exatamente das suas, minhas palavras dra.

"A primeira é que no ano passado, quando estava no último ano da faculdade, passei na OAB e concomitantemente meu contrato de estágio se encerrou. Antes eu tinha uma rotina caótica de estudo e trabalho, depois fiquei sem nada. Resultado: tive uma espécie de início de crise de ansiedade."

Esse lapso entre fim de faculdade e início da advocacia, de laço vira um nó incompreensível em nossas cabeças. continuar lendo

Acho que uma das partes mais difíceis do home office é conseguir desligar, justamente pq não tem aquilo de sair, apagar as luzes, fechar as portas e voltar só amanhã.

Precisamos mesmo relaxar! Espero que aproveite sua viagem! continuar lendo

Nem me fale, @julianetmonteiro!

Ontem senti um pouco os efeitos de uma jornada sem aquelas "férias" onde você se desliga mesmo.

Obrigado pelo seu comentário! Ah, estou te seguindo por aqui também! :)

Abraços! continuar lendo

Boas férias Dr.
Boa viagem e que tenhamos muitos textos inspiradores!
Também estou contando os dias para as minhas, mas vou só até "logo ali" em MG.
Abraço! continuar lendo

Oi, Pâmela!

Muito obrigado! 🙏

Boas férias pra você também! Sou suspeito pra dizer, porque sou mineiro, mas Minas Gerais é lindo demais! Haha!

Abraços! continuar lendo

Olá Pedro!

Precisamos dar uma desligada de vez em quando, mas as vezes bate aquela culpa danada.

Ou seja, isso deve ser resultado dessa rotina maluca em que vivemos.

Contudo, temos que tentar administrar isso de uma maneira saudável. Quando eu conseguir te conto. kkk

Mudando de assunto, depois passe umas dicas de estadia na Serra da Canastra, assisti um programa em que o Olivier esteve por lá e fiquei com vontade de conhecer.

Por fim, tenha uma ótima viagem.

Grande abraço! continuar lendo

E aí, André!

Cara, a Serra da Canastra é um lugar incrível! Já fui pra lá duas vezes com a minha esposa. Você encontra muitas pousadas no Airbnb. As cidades não são lá essas coisas, mas se você estiver disposto a andar um pouco por estradas de terra (são até boas e bem sinalizadas), vai encontrar muita coisa legal. Em alguns lugares você consegue visitar várias cachoeiras que ficam dentro da propriedade, então não precisa pagar a mais. As pessoas são hospitaleiras e muito receptivas. Enfim, quando for, conheça a Casca d'anta. Muito lindo!

Depois me conte! Abraços! continuar lendo

Fala Pedro!
Sim, estou disposto a andar em estrada de terra e comer muito queijo da Canastra.
Agradeço pelas dicas.
Grande abraço. continuar lendo