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19 de Fevereiro de 2020

Como transformar sua petição inicial em um bom texto

Alguns passos simples e práticos

Pedro Custódio, Advogado
Publicado por Pedro Custódio
há 3 meses

Caros leitores [email protected], não duvidem, vocês são escritores.

Começo o texto lembrando essa verdade, para que você nunca mais se esqueça.

Sem contar todo o período acadêmico em que você elaborou trabalhos escritos e respondeu várias questões dissertativas, faz parte do seu dia a dia escrever petições, e-mails, mensagens no WhatsApp, pareceres e contratos.

Mas, por alguma razão, quando se fala em produção de conteúdo, ainda que esteja mais do que claro que isso pode te trazer resultados - digo, clientes - a maioria trava.

Normal. Comigo também foi assim.

Publiquei meu primeiro texto no dia 21 de Dezembro de 2016. Não me pergunte porquê, mas postei apenas no LinkedIn.

Depois do insucesso, já que meu texto rendeu apenas cinco visualizações, tomei coragem para publicar novamente apenas em 14 de Dezembro de 2017. Ou seja, quase um ano depois.

O motivo - ou os motivos - desse lapso temporal entre o primeiro texto e o segundo talvez seja o mesmo da grande maioria dos que começam a escrever e param: não saber o que escrever.

Mas a verdade é que não tem muito segredo. Você só precisa começar.

E, no seu caso, doutor (a), talvez não precise começar do zero.

Provavelmente tem muita coisa aí nos seus arquivos que daria um ótimo texto para ser publicado e gerar visibilidade online para você ou para o seu escritório.

Nesse texto eu vou te explicar com alguns passos simples como você pode aproveitar isso.

1 - Transforme a narrativa dos fatos em storytelling

Em termos bem simples, storytelling é a arte de contar histórias com o objetivo de prender a atenção do leitor e transmitir a mensagem que você quer que ele saiba.

Usei um pouco dessa técnica te fazendo lembrar dos trabalhos escritos na faculdade, do seu dia dia escrevendo coisas e te contando um pouco da minha experiência com os meus primeiros textos.

Se você está lendo até aqui, pode ser que tenha dado certo.

Imagine que você tem uma petição aí nos seus arquivos e você precisou narrar certos fatos, claro.

Deve estar mais ou menos assim:

Ilustre Julgador, desde 06 de Novembro de 1970, o Requerente laborou como mecânico na empresa do Sr. X realizando habitualmente atividades insalubres, exposto a agentes agressivos à saúde, com emprego de produtos contendo hidrocarbonetos aromáticos como solventes, conforme a Norma Regulamentadora nº 15, sem qualquer Equipamento de Proteção Individual - EPI.

Agora, vamos transformar isso numa boa história.

Em 1970, as pessoas não tinham acesso às informações que temos hoje.

Lembro-me do meu avô. Seu primeiro emprego foi como mecânico em um posto de gasolina, numa pequena cidade localizada no interior de Minas Gerais. Provavelmente ele nem sabia o que era uma atividade insalubre, mas seus dias de trabalho envolviam o contato direto com graxas, solventes e desengraxantes.

Era comum ver meu avô com feridas nas mãos e irritação nos olhos por conta disso, já que trabalhava sem qualquer proteção.

Se isso não bastasse, meu avô teve o seu requerimento de aposentadoria especial negado pelo INSS.

Percebeu?

Você precisa de um diferencial para que o seu texto não seja “apenas mais um” e uma ótima maneira de fazer isso é contando uma boa história.

As histórias criam conexões com o leitor, deixando o conteúdo mais familiar e interessante.

2. Identifique algumas palavras-chave

Embora o termo tenha ficado popular no mundo do marketing de conteúdo, as palavras-chave são usadas na arquivística, biblioteconomia, catálogos e, sim, nas ementas dos julgados que você utiliza nas suas petições - é por isso que você usa palavras-chave quando pesquisa alguma jurisprudência nos sites dos Tribunais.

Se o seu texto trata de indenização por danos morais por negativação indevida, por exemplo, é importante que essas palavras apareçam em vários pontos do artigo, tornando-se um termo de referência para os motores de pesquisa do Google.

Para te ajudar a encontrar as palavras-chave mais usadas pelos internautas existem ferramentas gratuitas como o Google Keyword Planner e o Keyword Tool.

3. “Do direito” em tópicos

Se você é como eu, talvez tenha alguns textos abertos em outras abas ou uma pasta do tipo “para ler depois”.

Sim, temos bastante coisa pra ler e a leitura tem de ser mais rápida.

Mas mesmo que você não se aprofunde na leitura desse texto - não faça isso, ok? - por exemplo, poderá ter uma boa ideia do que eu quero dizer apenas escaneando os tópicos.

Você também pode facilitar a vida do leitor criando tópicos no texto, escrevendo parágrafos pequenos ou destacando os principais pontos em negrito ou em itálico.

4. De 85 páginas para 1.000 palavras

Eu não acredito que existem artigos longos. Exitem apenas artigos chatos de se ler.

Mas isso não quer dizer também que você precisa esgotar o tema e colocar todas as teses possíveis sobre o direito do leitor.

Seu artigo não pode ser grande demais para que fique cansativo nem pequeno demais deixando a desejar.

5. Substitua as palavras rebuscadas e os jargões

Pense: dentro de tudo o que você escreveu na petição, o que seria útil para o leitor? O número da Súmula do STJ? O acórdão fabuloso que você utilizou no texto? Palavras ou termos como a despeito, irrefutável, corolário ou vacatio legis?

Definitivamente, não.

Eu sei que isso é difícil, principalmente porque fomos ensinados na faculdade que escrever bonito transmite confiança e conhecimento, mas aqui estamos falando de redação para a web, meu caro. Além disso, você está transformando uma petição em um texto, não o contrário.

Você deve facilitar a leitura e deixar o seu texto mais acessível.

Se precisar de ajuda no começo, uma ótima alternativa é contratar um freelancer para revisar seu texto.

6. Nos requerimentos, peça algo ao leitor

Calma. Não peça para o leitor te ligar, muito menos te procurar para ingressar com uma ação.

Esse é o momento certo de permitir - e convidar - que o leitor interaja com você ou te conheça melhor.

Veja algumas ideias do que você pode pedir para ele fazer ao final do texto:

  • Deixar um comentário, se o texto foi útil pra ele;
  • Se inscrever na sua lista de e-mails para receber novos textos;
  • Compartilhar a informação com outras pessoas;
  • Saber mais sobre esse ou outros assuntos sugerindo a leitura de outros textos seus.

7. Distribua a ação - ou melhor, publique o texto

O mais difícil você já fez. Definiu um público, escolheu um tema, encontrou as palavras-chave, escreveu, revisou, escolheu uma imagem de destaque incrível e, agora, vem a parte mais fácil: publicar o seu texto.

Para isso, basta abrir o editor de textos do Jusbrasil ou do LinkedIn e… publicar!

E aí, gostou do texto? Foi útil pra você e te ajudou com algumas ideias? Eu gostaria muito de saber! Me conta nos comentários ;)

Publicado originalmente em pedrocustodio.adv.br

42 Comentários

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Gostei do trocadilho do título com o texto em si.

Vim pelo click bait, mas serviu ao mesmo propósito. Confesso que como eu venho do jornalismo (minha primeira formação) escrever de forma estruturada nunca foi um grande problema. O problema que percebo, são outros.

Existe uma série de liturgias jurídicas que dificilmente são transpassadas pela maioria dos colegas. A forma como se escrevem as petições é algo, na minha humilde visão, muito retrógrada e em muito parece-me que ficamos enxugando gelo. A gente finge que escreve, o juiz (assessor) finge que lê e a decisão, muitas vezes, vem com base em coisas nada a ver.

Após um curso com uma colega advogada, comecei a dar mais ênfase e energia e esmero a parte fática. Não para encher linguiça com uma série de adjetivos para deixar a coisa melodramática. Mas ter uma expressão precisa e pontual do que realmente aconteceu e suas repercussões nas vidas dos meus clientes, sejam Requerentes ou Requeridos. E isso me deu um salto de qualidade. Peticionar é pedir, essencialmente. Quanto melhor e mais claro se pede, melhor se recebe.

O resto são penduricalhos e enxertos para mais confundir do que elucidar.

Obrigado pela lucidez de sempre, Pedro.

(Há) Braços! continuar lendo

Fala, @thiagonvieira!

Penso como você. Tenho procurado escrever o que eu gostaria de ler também. É um respeito com interesse e o tempo dos meu leitores, no caso de um texto, e um respeito com a celeridade e eficiência que a justiça deve ter, no caso de petições.

Obrigado por compartilhar sua opinião! Adorei seu comentário!

Abraços! continuar lendo

Obrigada pelas dicas Dr.!
Sou daquelas que escreve bem objetivamente, sem delongas, exceto quando estritamente necessário.
De fato, o texto longo, se não agradar ao leitor, se não o prender na leitura, se não for aquela leitura fácil, não o trará de volta aos seus escritos.
Penso o mesmo sobre uma petição. Sabe aquele lema "Petição 10, sentença 10", que remete a petição de 10 folhas? Busco praticar. (acho que já disse isso aqui em algum lugar do Jus rsrs)
Óbvio que nem sempre é possível, às vezes o caso depende de muitas folhas mais. continuar lendo

Oi, Pâmela!

Realmente! Eu também sempre escrevo pensando no que eu gostaria de ler por aqui.

Acho que na internet, na maioria das vezes, procuramos conteúdos rápidos e úteis.

Para leituras mais longas e aprofundadas os livros estão aí pra isso, né?

Obrigado pelo seu comentário!

Abraços! continuar lendo

Ahhhh...se eu soubesse antes o gosto que iria ter pela escrita teria investido muito antes rs

Acredito que os advogados devem ter a consciência de que a escrita é tão importante quanto a fala e que uma linha escrita de forma errada destruir a tese de uma peça.

Grande conteúdo Pedro! continuar lendo

Nem me fale, Alice!

Se eu soubesse antes também, talvez, nem seria advogado! Hahaha!

Mas foi a advocacia que me abriu esse caminho :)

Obrigado pelo seu comentário!

Abraços! continuar lendo

Sensacional, @pedrocustodion!! 👏👏👏👏👏 continuar lendo