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21 de Setembro de 2019

Minimalismo digital: quando nada é tão urgente e brilhante quanto parece

Pedro Custódio, Advogado
Publicado por Pedro Custódio
mês passado

Você já experimentou dias onde teve a sensação de que tudo estava no controle? Sua cabeça estava leve e livre de preocupações, e você estava fazendo exatamente o que deveria estar fazendo naquele momento, sem medo do telefone tocar ou de receber alguma mensagem ou e-mail de algum cliente te cobrando algo?

Sabe aquela conversa boa com algum amigo que você não vê há muito tempo, e você esquece o celular no bolso e vive o momento com total atenção, com a certeza de que você não está perdendo absolutamente nada?

Pois é. Eu vivia o oposto disso.

Por muito tempo meu celular foi o meu pior inimigo. Apesar de achar incrível como a tecnologia encurtou distâncias e abriu um mundo na palma da minha mão, me sentia ansioso o tempo todo pela próxima notificação ou invadido quando recebia alguma mensagem ou ligação em algum momento em que eu precisava de concentração ou apenas queria sossegar.

Ficava o tempo todo rolando a timeline. Me inscrevia em listas e mais listas de e-mail para ganhar o e-book com as dicas que iriam transformar o meu escritório. Tinha uma pasta cheia deles e eu nunca tinha tempo para ler, além de uma caixa de e-mails sempre lotada de gente querendo me vender alguma coisa, e uma ansiedade sem fim para absorver aquele monte de informações.

Parecia que a cada dia eu estava mais desatualizado e outros advogados estavam fazendo alguma coisa que eu não estava fazendo nas redes sociais, e eu também precisava começar, lógico, naquele instante.

Aos poucos fui percebendo que, nesse mundo caótico e de um fluxo gigante de informações, é fácil a gente se perder e ficar ansioso pela próxima oportunidade brilhante que irá surgir, deixando de investir o tempo necessário para realmente ter sucesso com uma.

O leitor que me lê semanalmente, seja aqui no meu perfil do Jusbrasil ou do LinkedIn ou no meu blog, já deve ter percebido como gosto de falar sobre as coisas importantes da vida.

Já contei aqui do dia em que descobri que nunca teria um terno Brooksfield, de um momento de crise que me fez ver a beleza de uma vida mais simples e do dia em que cheguei à conclusão de que tempo vale mais do que dinheiro.

Meu discurso pode parecer minimalista demais ou que sou um cara que me contento com pouco. Mas não. A ideia é muito simples, na verdade, e tem a ver com encontrar o que é realmente importante e suficiente pra você, não o que os outros dizem que é. É saber o tipo de vida que você imagina e quer pra você e buscar isso com todas as suas forças, sem deixar que o ideal das outras pessoas, muito menos a agenda delas, te atrapalhe nisso.

Já me senti culpado quando não estava envolvido de alguma forma com o meu trabalho ou quando encontrava um tempo livre na agenda e estava passeando com minha esposa, mas o celular tinha ficado em casa.

Esses pensamentos ecoavam na minha cabeça: vai que o cliente liga ou envia uma mensagem e eu não respondo na hora?! Vai que alguém me pede um orçamento e eu não estou disponível para responder?! Me disseram que eu preciso estar disponível.

A verdade é que eu não conseguia me desconectar. Se tornou inevitável.

Com o passar do tempo, quando comecei a me sentir mais seguro em relação aos meus ideais de vida e trabalho, percebi que a maioria das coisas que chegavam até mim não eram tão brilhantes assim, muito menos urgentes quanto pareciam ser. Algumas delas, inclusive, não demandavam nenhuma ação da minha parte, apenas roubavam a minha atenção e, muitas vezes, o meu humor.

E-mails, mensagens no WhatsApp ou notificações... Nada que eu não pudesse resolver depois, em um momento reservado para isso.

Hoje, por exemplo, mantenho meu celular no "modo avião" durante a manhã toda. É um período que, particularmente, gosto muito e me sinto mais produtivo. Aproveito para praticar exercícios, ler e escrever.

Nem tudo é tão urgente quanto parece, e você não precisa visualizar tudo na hora, responder na hora ou solucionar imediatamente.

Eu sei que cada um tem os seus corres e compromissos, mas acho que podemos controlar um pouco mais o nosso tempo e não deixar que os outros façam isso.

Recentemente recebi uma ligação de um ex-cliente, por assim dizer. Parei tudo o que eu estava fazendo e o atendi. Pela insistência, parecia importante. De fato, era, e eu pedi alguns documentos que eram necessários para resolver o problema, e ele se comprometeu a enviar. Isso já faz dez dias, e nada dos documentos.

Percebe?

Às vezes a gente para tudo, passa por cima do que é prioridade pra gente, checa mensagens e notificações enquanto dirige e, no final, as coisas parecem não ser tão urgentes. Só nos deixaram distraídos e mentalmente sequestrados.

Refleti bastante sobre isso depois de ler o livro Minimalismo Digital, de Cal Newport. Professor de ciência da computação na Universidade de Gergetown, Cal defende a ideia de que devemos examinar as ferramentas digitais de comunicação que usamos, melhorando o uso com as ferramentas que agregam valor à nossa vida e eliminando o que ele chama de "ruído digital de baixo valor", ou seja, aquelas que não agregam valor à nossa vida.

A chave para viver bem em um mundo de alta tecnologia é gastar muito menos tempo usando a tecnologia. Cal Newport

De acordo com o Screen Time, uma ferramenta do iPhone para monitorar o tempo que passo olhando para ele, minha típica rotina diária no celular já bateu a meta de noventa minutos de troca de mensagens, uma hora de leitura, mais uma hora checando e-mails, outra nas redes sociais e aproximadamente 70 “olhadas” - ou "conferidas", como você preferir.

Quando parei para avaliar as ferramentas digitais que eu uso no celular, descobri que o App do Facebook era, para mim, somente “ruído digital de baixo valor”. Sempre que eu entrava, os minutos passavam e eu não obtinha nenhum valor real disso. Ou seja, tempo valioso jogado fora.

Aplicativos como o do Linkedin e e-mails, embora sejam parte do meu trabalho, decidi não ter no celular também, justamente porque utilizo no meu desktop, onde passo a maior parte do meu tempo. Não faz sentido desligar o computador no final do meu expediente e continuar no celular depois.

Fiz também um detox no meu e-mail pessoal. Me descadastrei de várias listas de e-mails que não tinha mais interesse, e recebo apenas algumas newsletters semanais que acho interessantes.

O minimalismo digital não só me ajudou a lidar com a complexidade de uma era de sobrecarga de informações, privação de sono, pressão e insanidade geral, mas também reduziu o atrito ao purificar meu dia a dia com informações mais desejáveis e também o meu trabalho com mais autonomia de tempo e espaço, quando o deixo em "modo avião".

Esse estilo de vida tem sido gradual mas o impacto já foi muito maior do que eu esperava. Me sinto mais focado quando estou escrevendo ou trabalhando em alguma questão jurídica, e menos ansioso tentando acompanhar todas as ferramentas digitais e respondendo prontamente todas as mensagens.

Nem tudo é tão brilhante ou urgente quanto parece.

E aí, gostou do texto? Às vezes você se sente sobrecarregado de informações também, assim como eu? Compartilha comigo o seu dia a dia e o que você fez para melhorar! Adoraria saber também se o texto foi útil pra você!

Publicado originalmente em pedrocustodio.adv.br

35 Comentários

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Bem, eu pessoalmente não gosto de ler longos textos na comunidade do JusBrasil, porém, desta vez, eu me surpreendi. Há algumas semanas eu comecei um projeto pessoal de desenvolvimento, possuo um iPhone e, a ferramenta citada, estava presente. Achei em um momento de distração e me surpreendi: possuía uma média de seis horas diárias, sendo 95% gastas com redes sociais. Isso me assustou.

Desde então iniciei uma jornada tentando abolir o uso do smartphone fora de casa. Cheguei ao pensamento que dentro de casa não há tamanho problema, pois, em sua maioria, as horas despendidas no lar são aquelas para repouso. Na primeira semana reduzi minha média para cerca de duas horas e meia diárias, e olhe que eu nem estava me esforçando tanto. Apenas botei o celular no silencioso. Acabei por estagnar nas duas horas. Esta semana cogitei a começar sair de casa sem celular. Utilizar menos a tecnologia é um estilo de vida paralelo e, quando você se torna um adepto, mesmo que amador, percebe o grande coringa. Na faculdade, na rua, nos pontos, nas lojas... é difícil não ver alguém com os olhinhos vidrados naquela tela, isso é assustador, trazendo prejuízos para: relacionamentos sociais, problemas emocionais e a própria produtividade, como elucidado pelo doutor no texto.

A preocupação com a família ainda me faz carregar o celular por aí, contudo... acredito que este seria um uso correto da tecnologia. É como aquela frase bem clichê: "A tecnologia não é algo ruim. Ela se torna a depender da utilização que a damos."

No mais, transcorrido esse relato pessoal, excelente texto. continuar lendo

Que bacana o seu relato, Arthur!

Parabéns pela iniciativa de se tornar uma pessoa melhor :)

Para mim foi bem difícil no começo, justamente porque essas ferramentas digitais fazem parte do meu trabalho como advogado e produtor de conteúdo. Mas a difícil missão de me desconectar tem me proporcionado mais autonomia e, consequentemente, mais qualidade de vida.

Obrigado pelo seu comentário! Abraço! continuar lendo

@arthuraquila fico feliz com seu testemunho. Que bom que as pessoas estão tomando consciência de que a tecnologia é para nós. E não nós para ela. Ao contrário de vc eu gosto de texto longo. Detesto livro fininho. Detesto seriados na temporada atual (gosto de deixar acabar e maratonar feito doida no final de semana). É por isso que gosto do @pedrocustodion e o sigo e leio avidamente. Quando eventualmente me deparo aqui com um texto curto, especialmente se o assunto for jurídico, me decepciono e escrevo feito louca nos comentários sobre todos os pontos relevantes do tema que não foram articulados pelo autor do texto. Sou uma chata nisso aí. Se vamos falar sobre um assunto, eu quero esgotar o tema. Acho até que deve ser um tipo de SOC isso aí, sei lá. Gosto de aprofundar, gosto de tudo muito e em abundância, especialmente as palavras, que são exatamente o que nos difere de animais irracionais. Com seu novo estilo de vida, quem sabe aprenda também a apreciar uma boa leitura. Ler e desejar ler mais a cada frase, a cada parágrafo, a cada capítulo, a cada sequência. Desejo a você um bom recomeço de estilo de vida. Você verá o quão ela será mais rica em tudo, quiçá até em dinheiro, já que a produtividade no trabalho tende a aumentar a medida que nos desvencilhamos das distrações. Boa sorte! continuar lendo

Parabéns, Dr. Pedro!

Mais um brilhante e pertinente artigo!

Eu, particularmente, sou um profissional que ainda sofro desse mal, mas já estou fazendo de tudo para neutralizá-lo.

Conforme bem colocado pelo Dr., a tecnologia encurtou distâncias, facilitou em muitas áreas, entretanto, trouxe com ela seus males, como exemplo, diminuição de diálogo entre famílias, desinteresse pela leitura e, sobretudo, a temida ansiedade.

Verdade é que a tecnologia e a ansiedade uniram forças e, hodiernamente, vem sugando energia daqueles profissionais que não se atentam para o melhor de tudo, o bem-estar e a vida.

Percebo, nitidamente, que há muita inversão de valores, profissionais que não se desligam de suas tarefas e a todo momento se sentem obrigados a manter conectados com o mundo, ou seja, preferem priorizar o dinheiro à felicidade, triste realidade.

Enfim, após refletir sobre esse brilhante artigo, conclui que nada é mais importante que o nosso bem-estar.

Forte abraço, Dr. Pedro! continuar lendo

Oi, Wellington!

Cara, você entendeu a mensagem. Realmente não tem fórmula mágica. Cada um tem o seu ritmo e prioridades, mas fazer essa reflexão é importante, principalmente nessa época em que andamos tão ansiosos.

Obrigado pelo seu comentário! Abraço! continuar lendo

Pedro, parabéns pelo seu amadurecimento digital, digamos assim. Eu sou a última geração não digital, que foi "atropelada" pelo universo digital. Sou da geração X. Pela diferença de um década, meu marido é da Y. Engraçado é que eu e ele tivemos contato com a Internet e o universo digital ao mesmo tempo, com a diferença de que eu já era uma adulta jovem e ele entrando pra pré adolescência. Mesmo assim, o modo de vivenciar a novidade é diferente pra nós dois, por uma razão simples: só foi "novidade" pra mim. Pra ele chegou em tão tenra idade que ele mal pode se lembrar dos tempos em que vivia sem isso. Portanto, eu sempre tive uma noção muito clara dos propósitos de ter um celular e nunca fui refém de um aparelho. Perdi valiosas e irrecuperáveis horas do meu limitado tempo nesse plano de existência, diante da tela tubo de meu primeiro computador conectado, conversando com estranhos em chats na era dos "bate-papos". Perdi muitos reais com isso também (o minuto de conexão tinha o custo de chamada telefônica na tal internet discada). Mas foi uma fase passageira, impulsionada por uma dor de cotovelo, que chegou junto com a novidade. Sem vontade de sair e ver os amigos, sem inspiração para trabalhar, a coisa meio que funcionou como terapia. Mas foi tão passageiro, mas tão passageiro que quando o filme "Mensagem para Você" com Meg Ryan e Tom Hanks fez sucesso, eu já tinha abandonado há eras o mau hábito e retomado o controle de minha vida e meu tempo, à moda antiga. Hoje, quando quero bater papo com amigos, evito meus amigos da geração Y. Detesto sair com esse povo que não sabe olhar pra cara da gente enquanto conversa e não sabe atender uma ligação de telefone e dizer: estou ocupada agora, depois te ligo. É como vc disse: há uma geração (e acredito q vc faça parte dela) que tem uma dificuldade enorme em diferenciar urgente de importante. Uma vez perdi a paciência com minha cunhada, pq ela veio tomar cerveja comigo em minha casa, mas eu não conseguia terminar uma frase numa conversa sem ser interrompida pelo celular dela. Daí eu falei, desliga isso, pelo amor de Deus. "Ah, é que era urgente". E quando ela disse o que era e quem era eu vi que não era urgente. Era algo que poderia (e seria de fato) resolvido depois, então não era urgente. Um assunto importante pode esperar. Tudo pode esperar, menos a urgência. Urgência é caso de vida ou morte, ou no caso de prazos legais. Fora isso, qualquer assunto, por mais importante que seja, pode ser agendado para ser tratado no devido tempo com o devido zelo. SEja profissional ou social. E daí essa geração conheceu o WhatsApp. Agora que não tenho mesmo paciência. Hoje, quando quero ter um momento de lazer entre amigos, dou preferência aos de minha geração e aos mais velhos, porque esse povo que não sabe olhar pra cara da gente enquanto conversa, sem conversar de verdade, não tem o meu apoio. Estou ficando velha e impaciente mesmo. Meu tempo é curto e não o perco com quem não está interessado em minha companhia. Meu marido começou a aprender muito sobre isso. Acho que ele teve o mesmo insight que você. Ano passado, pela primeira vez na vida, nossos papéis se inverteram: foi ele quem não levou o celular para a praia nas nossas férias e eu levei o meu e todo dia conectava, mais de uma vez ao dia, mas é porque eu precisava fazer chamadas de vídeo com as cuidadoras que ficaram tomando conta de minha mãe idosa e acamada e eu queria saber se estava tudo bem e queria ver pra ter certeza. Não fosse por essa tecnologia, talvez eu nem tivesse me sentido encorajada a tirar uns dias de férias. Mesmo assim, tinha os horários pra fazer isso e não perdi um segundo de contemplação do mar ou do prazer da companhia dos indivíduos do nosso grupo, com isso. Eu uso e sempre usei a tecnologia em meu benefício. Mas nunca me deixei ser escravizada por ela. E fico feliz quando vejo um testemunho como esse seu. As novas gerações não estão perdidas, afinal. Aos poucos, estão começando a aprender a viver as coisas boas da vida, "ao vivo". continuar lendo

Adorei seu comentário (como sempre), Christina!

Às vezes me considero estranho. Não faço parte de nenhum grupo de WhatsApp, ao contrário dos meus amigos e familiares que têm pastas cheias (sim, mil arquivos ou mais) de vídeos engraçados, memes e mensagens de boa noite que circulam nesses grupos.

Tento seguir o mesmo caminho que você, valorizando os bons momentos ao vivo, as boas conversas e, principalmente, o meu tempo.

Obrigado por compartilhar sua experiência comigo.

Abraços! continuar lendo

@pedrocustodion ri muito da parte dos "vídeos engraçados". Eu também tenho especial antipatia dos tais vídeos engraçados. O povo conseguiu a proeza de transformar qualquer dia da semana, a qualquer hora, num entediante crespúsculo de domingo. Num enfadonho quadro de Domingão do Faustão. O que mais me dá raiva é que o conhecimento está na palma da mão, mas a pessoa não tem coragem de usar a tecnologia para engrandecer seus conhecimentos. Prefere usá-la para se especializar na ignorância e numa vida rasa e sem sentido. Enfim, graças à Deus, nem todos né. Abraços! continuar lendo

Boa Pedro! Perfeito. Tento focar apenas naquilo que me trará alguma informação útil (sem me preocupar em absorver tudo), por isso, optei em não me utilizar do Facebook e afins. Posso te dizer que não sinto falta. Grande abraço. continuar lendo

Boa, André!

A ideia é essa mesmo, ir testando o que realmente é importante e refletir sobre o que você pode viver sem.

Obrigado pelo seu comentário! Abraços! continuar lendo