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20 de Agosto de 2019

A vida é uma questão de escolhas. Não é?

Pedro Custódio, Advogado
Publicado por Pedro Custódio
há 21 dias

Você já ouviu falar na Lei de Hick? Formulada por William Edmund Hick e Ray Hyman, ela descreve, basicamente, o tempo que uma pessoa leva para tomar uma decisão com base no número de opções possíveis a serem escolhidas.

Ou seja, quanto maior o número de alternativas, maior será o tempo necessário para que aquela pessoa faça uma escolha.

Essa lei vem sendo usada para desenvolver vários produtos e soluções, seja no mundo online ou offline. Por exemplo, nos dias em que um restaurante funciona com lotação máxima, pode ser interessante diminuir as opções do cardápio para que o consumidor leve menos tempo para escolher o que vai comer e seu pedido chegue mais rápido.

Vivendo nessa era de excesso de informações e alternativas, sempre me encontro em um paradoxo de escolhas.

E a vida é uma questão de escolhas, não é?

Em qual área me especializar? Abro um escritório ou começo em home office? Devo fazer esse curso ou aquele? Respondo esse e-mail agora ou não? Atendo esse cliente ou não? Compro esse carro ou aquele?

Até a nossa identidade entra nesse jogo da escolha. Quem vamos ser? Como queremos que nossos clientes nos vejam? Que tipo de conteúdo vou produzir? Em que assunto devo me tornar autoridade?

Uma infinidade de opções.

Não estou dizendo que isso seja ruim. Nossos antepassados não tiveram tantas opções de escolha. Hoje temos a possibilidade de criar o nosso próprio estilo de vida, trabalhar remotamente e com algo que faça mais sentido, aprender sobre diversos assuntos e transformar um conhecimento numa fonte de renda em poucos dias.

Mas também corremos o risco de cair num limbo entre o arrependimento de escolhas ruins feitas no passado e a ansiedade de fazer as escolhas certas no presente.

Em uma palestra do TED que assisti recentemente, o psicólogo Barry Schwartz fala sobre um dos dogmas centrais da sociedade ocidental: liberdade de escolha. Ele conclui que o excesso de possibilidades de escolhas nos tornou menos livres e mais paralisados, mais insatisfeitos em vez de mais felizes.

Quando existem várias alternativas a considerar, é fácil imaginar os recursos atraentes das alternativas rejeitadas que deixam você menos satisfeito com a alternativa escolhida. Barry Schwartz

Temos dificuldades em escolher uma área de atuação porque as opções são muitas. Mas o pior não é isso. O pior é pensar que uma poderia te deixar mais feliz, mas a outra mais rico.

Optando pela que te deixaria mais rico, você corre um sério risco de ficar infeliz. Optando pela que te deixaria mais feliz, você corre um sério risco de não ficar rico.

Tem algo mais paralisante do que isso?

Insatisfação constante no trabalho.

É um paradoxo, realmente, aquela pressão para “definirmos” nossa vida pelos próximos 10 anos, mesmo com um número incontável de opções que podemos escolher e que, talvez, ainda nem conhecemos.

Fica difícil escolher porque escolher uma coisa significa abrir mão de outra, e aquela velha pergunta bate à porta: será que vale a pena?

Você começa a enxergar tudo passando rápido demais e bate um desespero danado para “resolver a vida”. Você se pregunta porque escolheu o curso que levou 5 anos da sua existência e não aquele outro que você tanto queria e que, supostamente, te deixaria mais feliz.

E parece que é tarde demais para tudo.

Mas não é.

Hoje percebo o privilégio de não saber tudo e, ao mesmo tempo, poder aprender. Viver a impermanência e a inconstância da vida, encontrando talentos e vontades escondidas.

O propósito talvez seja a própria descoberta.

Estranho seria já nascer sabendo quais as melhores escolhas para a sua vida.

Quem é que nunca trocou o certo pelo duvidoso e depois viu que foi a melhor coisa que poderia ter feito? Quem tropeça e não aprende a levantar? Quem nunca encontrou desvios no caminho? Quem nunca teve que se perder para se encontrar?

Quem foi que disse que a vida é sempre em linha reta? A vida é o que está acontecendo enquanto estou escrevendo esse texto, com seus infinitos caminhos.

Em vez de ficar esperando sempre pelo melhor, ansioso pelo próximo capítulo ou pelo que ainda virá, talvez seja hora de se permitir um pouco e confiar mais nas suas escolhas, mesmo que você descubra lá na frente que talvez não tenha sido a melhor.

O medo de tentar, os bloqueios e barreiras ficam pequenos quando paramos de nos comparar e buscar nos outros as nossas respostas, apenas fantasiando a vida que não te pertence e um padrão que não te preenche.

Estranho seria não incluir subcapítulos, subtítulos e rodapés no script da sua vida. Estranho é quem não muda o filme quando sente que não pode mais engolir as mesmas falas falsas e ensaiadas. Estranho é deixar que te digam o que escolher e tentem te enfiar goela abaixo uma realidade na qual você não se encaixa ou não escolheu para si.

Estranho é quem se abandona e chama isso de viver.

Gostou desse texto? Deixar o seu comentário é uma questão de escolha, mas eu gostaria muito que você compartilhasse sua experiência de vida comigo!

Publicado originalmente em pedrocustodio.adv.br

49 Comentários

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Este texto mescla carreiras, propósitos de vida e decisões. Tudo o que amo! Enveredar para as inevitáveis reflexões filosóficas da vida através deste escrito, é preciso. Então, segura o leme, amigo!

Sabe Pedro, na vida, como a danada é uma faculdade onde a gente nunca se gradua e nem se especializa, o melhor é ir vivendo cada dia, de forma única, feliz, convicto de que está (no momento) fazendo o que tem que ser feito e tendo em mente que se não fez melhor, foi porque desconhecia.

O problema dá-se quando o homem tem convicção de que está andando em círculos como um cãozinho nervoso, mas nada faz para mudar circunstâncias. Comodismo é uma lepra, meu caro!

Saber experimentar os dois lados da vida (bonança e escassez) torna o homem mais sábio, calejado e cauteloso.
O danado é que, infelizmente, se vive numa sociedade em que se persegue a ostentação e perfeição em tudo; mesmo sabendo que somos imperfeitos e que nos esforçamos para perseguir a perfeição; inclusive em nossos atos diários.

Moral da história: - Se cobra demais, e, consequentemente, se vive de menos.

Quando jovem, escutava o lindo cantor Júlio Iglesias, cantarolar: Esqueci de viver, esqueci de viver... Uma poesia cantada.
Naquela época, eu, muito jovem, já dizia dentro de mim mesma: - Eu vou é viver tudo o que tenho direito!
Errei muito. Acertei um bocado, mas, como o rei RC, leciona: - Se chorei, ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi.

Hoje as pessoas têm medo até de se aproximarem umas das outras. Já percebeu?
As amizades virtuais, distantes e líquidas estão na moda...

O homem, em sua maioria, mais infeliz de que nunca; segue uma vidinha medíocre, exibindo sorrisos largos e plastificados nas redes sociais, mas o interior arde de solidão.
Exibe conquistas, mas é um derrotado, emocionalmente tratando. Busca status, quando deveria buscar motivações para viver.
Granjeia cinco; conquista; segue infeliz. Granjeia dez; conquista; segue infeliz. Granjeia quinze; consegue; segue infeliz...

Amigo, do alto meu observatório humano, sigo cada dia mais unida com as pessoas que me cercam; tenho poucas amizades, mas duradouras, exibo um sorriso sincero ao meu semelhante, vivo uma vidinha boa danada; e o melhor: desfruto de tudo isto, ostentando uma cifra bancária ínfima, pois tenho convicção que o dinheiro é um ótimo servo, mas um péssimo patrão!

Óbvio que luto todos os dias por cifras mais robustas e dias ainda mais amenos; todavia, descobri a delícia de ser feliz, tendo e usufruindo com o que denomino: ‘o que temos pra hoje’.

Quando pego-me meio apreensiva com o porvir, lembro que perdi em 1998 uma amiga íntima vitimada por um câncer agressivo, e, em 4 meses estava a enterrar a minha Nega querida.
Minha Nega, como eu carinhosamente a chamava, deu-me alguns conselhos antes da partida, recomendando-me: - Burégio, viva a vida! – Seja responsável, mas não leve a vida tão a sério! - Curta a vida, minha filha!

Recentemente, li a reportagem de uma médica catarinense que antes de falecer, deixou um bilhete emocionante.
Eis o link do bilhete: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2018/12/30/médica-catarinense-que-morreu-apos-cancer-deixou-carta-de-despedida-com-reflexoeseconselhosavidaehoje.ghtml

Assim, vivo muito, curto muito, aprecio pessoas, animais, natureza e adoro um Ser Divino que outras pessoas o repudiam, outros o hostilizam e outros não acreditam Nele. Pouco importa.

Sei que há um porvir, mas aproveito a estadia terrena, despedindo-me diariamente do mundo, como se estivesse sempre de malas prontas para partir.
Aprendi que caixão não tem gavetas, e que nunca vi, e nem verei, um funeral saindo ao lado de um caminhão de mudanças...

O resultado deste estilo de vida escolhido, é: saúde emocional, desapego exalando pelos poros, foco, determinação e muita cuca fresca e paciência para lidar com o meu semelhante que ainda não bebeu desta fonte denominada ‘vida’, que jorra de forma triunfal, mas poucos bebem dela.

Um abraço afetuoso! continuar lendo

Isso aí @fatimaburegio . A vida é uma viagem só de ida. Quando metemos isso na cabeça, tudo parece ficar mais fácil. Não fácil no sentido da ausência de esforço, mas fácil no sentido de se aceitar e até preferir o esforço e seus resultados, o inesperado, o risco, os tropeços e, por fim, a glória. continuar lendo

Que comentário emocionante, Fátima!

Não ouso nem complementá-lo. Você disse tudo. É a sabedoria que tenho buscado dia após dia.

Muito obrigado! Abraços! continuar lendo

Dra Fátima Burégio, suas colocações são tão belas quantos as do texto do Dr Pedro. Minha companheira de mais de 50 anos (esposa) costuma citar; "a vida é uma chuva". Eu, particularmente sempre cito que uma boa oportunidade bate a nossa porta, uma só vez. É muito difícil saber qual o melhor caminho a tomar. Já conheci um nordestino analfabeto, dono de boteco, que fez sucesso financeiro, em compensação tenho um parente (primo da esposa) que possui nada menos que alguns diplomas de curso superior e, acabou por ter que optar vender produtos para salão de beleza e, sem sucesso financeiro algum. Eu, por ex., como não tinha alternativas, semi-analfabeto, optei pelo mais prático e seguro, naquela época (anos 60), ser VOLUNTÁRIO do EB. Assim como deu certo, poderia ter dado errado. Gosto muito desta frase: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". continuar lendo

ótimo texto, como sempre, Pedro. Particularmente acredito que quem pensa muito sobre fazer ou não, algo, acaba não fazendo. Graças ao bom Deus esse não é meu perfil. Eventualmente posso lamentar por ter feito escolhas erradas, jamais por não ter feito escolha alguma. Grande abraço. continuar lendo

Oi, Paulo!

Que bom que gostou do texto!

Realmente! Embora tenha o seu lado bom, ter muitas opções pode ser um tiro no pé quando pensamos demais antes de escolher. Como você disse, a gente acaba não fazendo.

Obrigado pelo seu comentário! Abraços! continuar lendo

Ótimo texto! É muito bom saber que não sou o único afetado por essa paralisia. Aliás, nem sabia que isso tinha um nome. Parabéns pelo conteúdo! continuar lendo

Oi, Carlos!

Com certeza você não é o único! Estamos vivendo a mesma era! Haha!

Se quiser se aprofundar no tema, recomendo muito a palestra que mencionei no texto!

Obrigado pelo seu comentário! Abraços! continuar lendo

O melhor texto que li este ano em qualquer fonte.

Parabéns Dr. Pedro. continuar lendo

Fico feliz demais de ler isso, Fernando!

Que bom que gostou!

Agradeço muito o seu comentário! Abraços! continuar lendo