jusbrasil.com.br
21 de Setembro de 2019

O dia em que descobri que nunca terei um terno "Brooksfield"

Pedro Custódio, Advogado
Publicado por Pedro Custódio
há 2 anos

Sabe aquela série Suits, da qual todo advogado fala? Com certeza você já deve ter visto por aí alguma foto do Harvey Specter, o advogado fodão interpretado por Gabriel Macht, sempre acompanhada de uma frase impactante do tipo: “faça o que é necessário ser feito até que você possa fazer o que quiser.”

Cara, confesso pra você que já me senti inspirado assistindo à série. Um escritório gigante, contratos e negociações milionárias, carros importados e um café nas ruas da cidade que nunca dorme. Sim, Nova York, aquela dos famosos táxis amarelos. Quem nunca?

Teve um momento da minha vida que percebi que querer ter sucesso ou ganhar muito dinheiro advogando, além de não ser fácil, não é diferente das dezenas de milhares de pessoas que se mudam para Los Angeles todos os anos com o sonho de ser ator ou atriz. A maioria dessas pessoas nunca se tornará estrelas.

Mas quem disse que temos que ser estrelas, ?

Eu penso que o sucesso é relativo demais para você seguir apenas um padrão ou um conceito dele.

Quando passei na OAB, saí da casa dos meus pais com uma mão na frente e outra atrás. A única coisa que eu tinha era vontade de trabalhar e aprender. Entrei num escritório, bajulava os chefes, mas, quando eles iam tomar um café na cafeteria da esquina, não me convidavam. Afinal, eu tinha trabalho a fazer. Eu via ações trabalhistas contra empresas que não registravam seus funcionários, mas eu também não era registrado – nem associado nem nada. Chegava cedo, abria o escritório e, muitas vezes, ia embora com as luzes da rua já acesas, quando não levava trabalho para casa. No final do mês, recebia um fixo que dava para me manter e pagar a passagem do busão.

Depois de passar por tudo isso e advogando sozinho há um ano, continuo tendo só uma mão na frente e outra atrás, como quando cheguei aqui, mas conquistei coisas que têm muito mais valor para mim. Não tenho um escritório, mas também não tenho as despesas que ele traz. Não tenho um carro importado, mas também não preciso pagar seguro ou impostos caros. Não tenho uma infinidade de processos, mas consigo cumprir meus prazos trabalhando um ou dois dias da semana. Ah, não tenho muitos clientes, mas os que eu tenho sempre me convidam para uma rodada de cerveja.

Tudo é uma questão de escolhas, meu caro.

Esse pensamento provavelmente vai contra tudo o que você vê por aí sobre “como ser um advogado vencedor” e, definitivamente, não é o modelo de negócio mais lucrativo. Mas enquanto a maioria estuda formas de ganhar mais dinheiro, tenho procurado encontrar maneiras de não precisar tanto dele.

Meu primeiro passo foi dispensar o escritório – e comprar um terno mais barato.

Por isso eu acho que nunca serei um advogado de sucesso ou rico. Tipo, igual ao Harvey Specter. É que eu acredito que, para conseguir alcançar algumas coisas na vida, outras precisam ser sacrificadas, e mais honorários ou uma posição de sucesso não valem o tempo que passo com a minha esposa ou a possibilidade de trabalhar de onde eu quiser.

Não estou dizendo pra você fazer isso também. Se você está feliz, é o que importa.

Ah, sobre o Harvey Specter, eu escrevi esse texto ouvindo a trilha sonora do Suits. Por alguns momentos, me senti um advogado de sucesso! Confere aí: https://www.youtube.com/watch?v=JjwpGy2hXEM&feature=youtu.be


Gostou desse texto? Deixe sua opinião nos comentários. Aproveite também para compartilhar comigo o que você pensa sobre carreira, estilo de vida e objetivos.


Publicado originalmente em pedrocustodio.adv.br


Ah, se você quiser receber dicas minhas ou novidades por e-mail, basta se cadastrar qui. Ficaria feliz em ter seu contato ;)

256 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

Concordo plenamente, muito boa reflexão, e aproveito pra lembrar que "caixão não possui gaveta", ou seja, pra que acumular uma montanha de bens? Pra pagar mais impostos? Pra deixar aqui quando morrer e muito provavelmente criar uma batalha em família. Na boa, uma casa pra morar e um carro bom deve ser o suficiente, o restante, gaste com sua família em passeios e viagens, e com certeza, esses momentos vão com Vc para o "caixão". Parabéns ao colega pelo texto. continuar lendo

Oi, Guinther!

Você falou tudo! Se pararmos pra pensar, as coisas que realmente valem são os momentos que vivemos ao lado de quem amamos.

Obrigado pelo seu comentário!

Grande abraço! continuar lendo

Acho que essa filosofia de vida é a mais acertada e também a pratico. Serve na verdade para qualquer profissão. continuar lendo

Excelente visão! Especialmente quando falas: "Mas enquanto a maioria estuda formas de ganhar mais dinheiro, tenho procurado encontrar maneiras de não precisar tanto dele." Muito inteligente este pensamento. Obrigado por compartilhar! continuar lendo

Oi, Rogerio!

Esse pensamento é de um cara que gosto muito, Henry David Thoreau, e está em seu livro "Walden". Em 1845, ele deixou a cidade e foi morar na mata, a fim de sentir a vida como ela realmente é.

Indico muito a leitura desse livro. É inspirador ;)

Obrigado pelo seu comentário!

Abraços! continuar lendo

Excelente ponto de vista, obrigado por partilhar a sua visão de mundo. Eu, como reles estagiário de um escritório massificado vivi situação parecida, confesso que não tenho perfil para ficar atras de uma mesa defendendo causas em nome de grandes corporações, e, sinceramente a sua crítica sobre o terno da 'Brooksfield' vai de encontro a um texto do Lenio L. Streck sobre a nova advocacia e ternos vazios. Saudações. continuar lendo

Oi, Paulo!

Puxa vida! Obrigado pelo seu comentário!

Vou ler o texto que você me indicou ;)

Te desejo muito sucesso! Abraços! continuar lendo

Dinheiro compra felicidade sim, dinheiro é bom sim. continuar lendo

Oi, Lincoln!

Cara, há coisas que o dinheiro não compra e, para as outras, existe o Mastercard. Haha! :)

Dinheiro é muito bom. Não sou nenhum louco para negar isso. Só acho que há coisas mais interessantes pra fazer do que ficar correndo atrás dele.

Afinal, não fui eu que espalhei ;)

Obrigado pelo seu comentário!

Abraços! continuar lendo

Também acho que compra. Mas o que eu entendi do texto é que você pode comprar a sua felicidade com o dinheiro que você tem. Você pode ser feliz com os seus recursos. Agora sou eu que digo: Não que não deva querer mais e batalhar por ele, mas não precisa tomar ansiolítico e nem fazer terapia e nem virar alcoólatra e desistir de tudo só porque ainda não deu pra trocar o Fiat pela Ferrari. Ter sonhos faz a gente querer ir em frente. Mas seus sonhos de futuro não podem te atrapalhar a viver bem o seu presente, que no final das contas, é tudo o que você tem. continuar lendo